A Vida é…

25 Maio, 2008

Acordar dentro de uma cabine à prova de som, vestindo uma camiseta pólo e um headphone que o deixa tonto. Você não consegue enxergar nada por causa das luzes dos holofotes, uma forte urgência de vômito o domina. Do lado de fora, centenas de donas de casas histéricas gritam o nome do Deus Pagão de Peruca, enquanto seu fiel sacristão corre de um lado para outro, rindo dos insultos do chefe de sorriso reluzente. Você não consegue escutar as velhas piadas de sempre, a eterna rotina escrita por roteiristas jogados num porão com criaturas infernais. O Deus Pagão domina completamente o seu ofício, aquele é o seu altar, e as risadas de suas fãs sua religião. Sem se dar conta, um súbito desejo de responder perguntas não ouvidas toma conta do seu corpo suado. “Sim!!!”, “Não!!”, você grita, sem noção do que esteja acontecendo. Iates, casas de praias, liquidificadores com 5.00 rotações, baús lotados de pererecas de plástico, ioiôs que piscam, tesouros perdidos e quinquilharias imbecis: tudo lhe é oferecido. E você, isolado na sua cabine fedorenta, aceita as fraldas com estampa do frajola e recusa o aparelho de som importado. O público delira com a sua desgraça. As mamães vão voltar para as suas caravanas com uma história para contar. As luzes se apagam, o cenário é trocado e o Deus pagão vai para o seu camarim, enquanto você continua no seu cubículo, definhando lentamente, gritando respostas para perguntas nunca ouvidas.

Percervejo

23 Maio, 2008

Não sou um leitor voraz, prefiro os quadrinhos e bulas de remédios. Não vou aos museus, prefiro as pinturas de palhaços tristes e capas de cadernos de caligrafia. Não gosto de pessoas, prefiro os percevejos. Por isso não faço nada que valha a pena, apenas desenho corações no i da sua indiferença.

Cartoon

16 Maio, 2008

Tudo o que eu sei sobre o amor aprendi com os desenhos animados. Não sei nada sobre romance. Nunca entendi certas figuras de linguagem. Desconheço o olhar efêmero que pode arruinar uma vida. Nunca me simpatizei com as mocinhas românticas ou com os anti-heróis desiludidos. Lágrimas de amor sempre me pareceram de crocodilo. E nunca me encantei com um joelho desnudo. No entanto, sempre que te vejo, surge nessa minha cabeça de menino perdido a imagem de um homenzinho serrando uma árvore gritando “Madeiraaaaaaa!!!”.

Caramelos

6 Maio, 2008

Ele colocou uma porção de caramelos na boca. Ela roubou caramelos do restaurante onde trabalhava. Ele sempre tinha caramelos nas suas calças jeans. Ela jogava caramelos na bolsa. Ele os compartilhava com os amigos. Ela os guardava para si.

Eles nunca se cruzaram. Nunca trocaram um olhar descuidado na rua. Nunca fizeram parte da mesma lista de correntes de e-mails. Nunca tiveram um amigo de orkut em comum. Nem pertenciam à mesma geração. Ele tinha idade para ser o tio legal. Ela não tinha vocação para ser sobrinha. Ela queria ser poeta. Ele queria deixar de ser. E eles nunca se amaram, e nem mais ninguém. Apenas os caramelos.