Cartas do Tio Ataulfo.

23 Abril, 2008

Notícias do Front.

Querida Leonora, escrevo-lhe esta missiva no pouco tempo que me resta. Entre tiros de canhões e saraivadas de balas de espingardas, eu passo todo o tempo disponível lendo as cartas da minha Tia Nonoca e seus relatos sobre o bico de papagaio do Tio Aristeu (parece que ele agora vive entrevado na cama, o que dificulta o seu ofício de caixeiro-viajante). Contudo, felizmente, consegui um certo refúgio para responder a sua adorada carta, um bálsamo nessa jornada sangrenta, porém, tediosa. Fico muito feliz que você tenha voltado a ministrar suas aulas de piano. Imagino o quão difícil deve ser lecionar com dois ganchos no lugar das mãos (você sabe o quanto lamento pelo acidente em Friburgo. Maldito teleférico!). Você sempre foi um exemplo de determinação e graça perante as intempéries da vida – como  a padroeira da nossa cidade, Santa Hemergunina, aquela que morreu pelos pombos.

Não quero ater-me aos detalhes pecaminosos da minha estada nessa trincheira, já basta as lembranças que levarei comigo e o baço do finado Soldado Zacarias  (que me fez prometer entregá-lo, em mãos, para sua prometida). Apenas conto-lhe que as condições estão piorando, os mantimentos estão acabando e o reservatório de água também – o que nos obriga a tomar banho com todo estoque de perfume francês do Cabo Louis – além disso, o rádio só sintoniza em estações da Finlândia. A rotina nesse canto esquecido pelos deuses está um tédio, mas pelo menos aprendemos a dançar o tango finlandês.

Com abraços afetuosos do seu estimado amigo.

Ataulfo Atenor.