segredo
10 Julho, 2009
Se um dia eu lhe contasse um segredo, não gostaria que guardasse para si. Gostaria que anotasse num caderno e o enterrasse numa fossa atrás daquele lugar onde só nós dois conhecemos. E, quando depois de centenas de anos, uma criança de outra civilzação, mais evoluída e estranha do que a nossa, escavasse o seu jardim para enterrar o seu piolho gigante de estimação e encontrasse o caderno, ela não conseguiria entender os misteriosos rabiscos naquele livro e passaria a vida toda tentando decifrar um “eu te amo”.
O que deixa um sorriso no meu rosto é que em algum lugar do mundo, existe um homem arrumando sua mochila: lanterna, corda, mantimentos, fósforos, o kit completo de sobrevivência. Tudo isso para esperar que uma nave espacial o abduza.
Eu ia escrever sobre algumas coisas, a chatice dos emos, epifanias filosóficas descobertas ao abrir um pacote de biscoitos, mas não me sinto muito bom de conversa. O grande problema de escrever qualquer coisa – seja uma carta para alguém, um conto, ou uma lista de coisas para fazer – é o assunto. Por mais que a gente utilize técnicas de escrita automática ou que perfure o nosso inconsciente com uma furadeira Black & Decker em busca de qualquer migalha interessante, a primeira linha sempre dá aquele frio na espinha, acompanhado de uma vontade infantil de se esconder por debaixo da carteira do colégio. Infelizmente, não fazem mais carteiras de colégio grandes o suficiente para me esconder debaixo delas. No entanto, a gente sempre continua batendo teclas com aquela elegância forçada do Mister Magoo, naquele episódio onde ele confunde um piano com uma máquina de escrever. Algumas pessoas têm seus rituais ou supertições, eu, por exemplo, costumava fazer alongamento nos dedos, mas nunca resolvia a cãimbra mental que vem com a segunda página. Pensando bem… nada resolve. Talvez se afastar um pouco, tomar uma coca, devorar um pacote de Ana Maria sabor baunilha, sentir-se culpado, e continuar a escrever. Ou jogar pingue pongue com um amigo invisível que sempre perde e ainda te deixa comer as Ana Marias em paz.
Running Up That Hill
14 Julho, 2008
Sumiço
25 Junho, 2008
Por onde estará o dono do Polpa? Caçando tigres africanos com o seu guia neozelandês? Em Belize, como gerente de uma boate, onde apenas são permitidos turistas japoneses? Dançando o Foxtrott? Num cinema bem perto de você? Ou viajando pelos quatro cantos do mundo, de graça, dentro de um contêiner, ele e 150 latas de atum? Caso você, caro leitor, acerte uma das alternativas, ganha um pacote inteiro de caramelos.
Planos
1 Junho, 2008
Planos para os próximos 28 anos:
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Ler Moby Dick.
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Comprar um Atari.
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Acabar de ver Persona, do Bergman, sem dormir.
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Aprender a jogar iô-iô.
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Fazer um moicano.
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Nunca mais fazer um permanente.
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Voltar a escrever cartas para Sven, meu pen pal finlandês.
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Passar um dia inteiro preenchendo um caderno de colorir.
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Ler mais Fernando Pessoa.
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Usar chapéu panamá.
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Aprender francês.
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Descobrir o que é um Ossobuco.
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Fazer uma tatuagem do Gregor Samsa no braço.
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Conhecer a Amy Hempel.
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Escrever cartões postais para estranhos.
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Voltar a andar de patins.
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Queimar textos antigos da faculdade.
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Chorar assistindo aos Trapalhões.
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Ganhar dinheiro escrevendo.
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Dormir vestido de smoking.
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Entrar num curso de mímica.
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Responder um desses “como vai você” sinceramente.
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Jogar a tevê fora e comprar um aquário.
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Aprender a dançar o break.
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Ler mais ficção científica.
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Convidar os amigos para um café da manhã com milk shake e batatas fritas.
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Fazer tudo isso e não ficar satisfeito.
A Vida é…
25 Maio, 2008
Acordar dentro de uma cabine à prova de som, vestindo uma camiseta pólo e um headphone que o deixa tonto. Você não consegue enxergar nada por causa das luzes dos holofotes, uma forte urgência de vômito o domina. Do lado de fora, centenas de donas de casas histéricas gritam o nome do Deus Pagão de Peruca, enquanto seu fiel sacristão corre de um lado para outro, rindo dos insultos do chefe de sorriso reluzente. Você não consegue escutar as velhas piadas de sempre, a eterna rotina escrita por roteiristas jogados num porão com criaturas infernais. O Deus Pagão domina completamente o seu ofício, aquele é o seu altar, e as risadas de suas fãs sua religião. Sem se dar conta, um súbito desejo de responder perguntas não ouvidas toma conta do seu corpo suado. “Sim!!!”, “Não!!”, você grita, sem noção do que esteja acontecendo. Iates, casas de praias, liquidificadores com 5.00 rotações, baús lotados de pererecas de plástico, ioiôs que piscam, tesouros perdidos e quinquilharias imbecis: tudo lhe é oferecido. E você, isolado na sua cabine fedorenta, aceita as fraldas com estampa do frajola e recusa o aparelho de som importado. O público delira com a sua desgraça. As mamães vão voltar para as suas caravanas com uma história para contar. As luzes se apagam, o cenário é trocado e o Deus pagão vai para o seu camarim, enquanto você continua no seu cubículo, definhando lentamente, gritando respostas para perguntas nunca ouvidas.
Every Time We Say Goodbye
24 Maio, 2008